Como é possível identificar se um parente ou amigo está manifestando tendências suicidas, caso ele não tenha tocado diretamente no assunto?

É preciso conhecer bem aqueles que vivem conosco. Mudanças comportamentais atípicas, tristeza excessiva, isolamento social e consumo abusivo de álcool e drogas podem ser indicativos de que as coisas não vão bem. Falar em vontade de sumir, desaparecer do mundo, dormir e não acordar mais, também podem ser manifestações de ideação suicida. Comportamento e atitudes autodestrutivas e auto flagelo nos mostram que o outro precisa de ajuda. De forma geral, se conhecermos bem os que estão a nossa volta notaremos na maioria das vezes um comportamento diferente daquele que a pessoa normalmente tinha.

Qual é a abordagem que você, como profissional, sugere para os familiares ajudarem seus entes queridos nessa situação?

Sugiro manter a boa comunicação. Falar, abordar os sentimentos. Perguntar e principalmente mostrar-se disposto a ouvir e ajudar. Pesquisas mostram que o suicídio é uma atitude impulsiva e que a maioria das pessoas que tentaram, após receberem ajuda e tratamento adequado, mudaram de ideia. Conversar sobre a tristeza, sobre a falta de perspectiva de felicidade na vida daquele que sofre, é fundamental. No fundo as pessoas buscam por ajuda, mesmo sem pedir. Falar sobre os problemas e sobre a vontade de morrer não vai oferecer risco às pessoas em situação difícil. Pelo contrário, pode ser um alivio. Buscar ajuda médica e conscientizar aquele que sofre da necessidade do auxilio profissional também é importante.

Antes falava-se pouco sobre suicídio, o tema era um forte tabu, por várias razões. Isso vem mudando recentemente. Quais as razões que o senhor vê para isso?

A sociedade vem mudando recentemente e muitos dos temas que eram tabu antigamente hoje são discutidos. O suicídio sempre foi um assunto complexo. Boa parte das religiões ignoram o assunto e não oferecem nem uma missa, uma oração ou um conforto pós morte à família ou ao suicida. Além disso, essa é uma das poucas mortes que gera além de tristeza, sentimento de raiva nos que ficaram. Pois é visto como uma escolha de quem morreu, e uma causa totalmente evitável. A evolução cultural da sociedade aliada às pesquisas sobre o tema mostraram que além de ser importante causa de morte entre jovens, suicídio é assunto de saúde pública Por isso a abordagem do tema é maior nas mídias, e é feita de forma natural. Todos conhecemos alguém que se matou. Boa parte das pessoas teve ideação suicida, ainda que leve, em algum momento da vida. A sociedade está entendendo que não há motivos para ter vergonha de falar sobre isso.

O número de vítimas vem aumentando significativamente, principalmente entre os jovens. O que parece estar motivando esse aumento? 

A velocidade de vida atualmente, principalmente entre os jovens, é algo que me chama a atenção. Associada ao estilo de vida e à forma de pensar. As gerações mais novas estão cada vez mais interconectadas, numa velocidade astronômica, sabendo o que se passa do outro lado do mundo no mesmo instante. Essa conexão no entanto não é profunda. As conversas e relações entre os jovens youtubers, facebookers e twitters tendem à superficialidade. O estilo de vida além de veloz, é marcado pelos excessos. Muitas festas, muitos compromissos, muitas atividades extracurriculares. Muita cobrança. E principalmente muito consumo de álcool e drogas, principalmente entre os mais jovens. Já a forma de pensar, a personalidade das gerações atuais, é diferente. Não lidam bem nem aceitam os fracassos e frustrações. Não entendem que falhas, demissões, términos de relacionamento, dificuldades financeiras e outros problemas fazem parte da vida. Ou porque foram privados dessas experiencias, ou porque não foram ensinados assim.
Em suma essa combinação potencialmente explosiva faz com que os jovens busquem se desligar do mundo às vezes, dos problemas. Diminuir aquela velocidade astronômica da vida. Sem ter laços fortes não conseguem conversar e elaborar seus sentimentos com os outros. Por fim surgem as alternativas como álcool e drogas, muito populares hoje. Quando os jovens percebem que a fuga não traz alívio, quando se percebem tristes e isolados, incapazes de lidar com os problemas, podem pensar em suicídio.

Qual a faixa etária que apresenta maior tendência a esse comportamento?

Definitivamente os jovens. Talvez por ser um período conturbado, com mudanças fisiológicas, hormonais, e muitas mudanças comportamentais. Estudos mostram que na faixa etária dos 15 aos 30 anos, o suicídio é a segunda principal causa de morte.

O fato de a mídia ter começado a abordar mais o tema, em filmes e seriados, foi boa estratégia para prevenção do suicidio?

Isso depende muito da forma como o tema foi abordado. Romantizar o suicídio não é exatamente uma boa estratégia para prevenção. Há um medo geral de que falar sobre o assunto aumente os índices de suicídio, principalmente expondo-o na mídia. No livro de Goethe, Os Sofrimentos Do Jovem Werther, do século XVIII, o autor conta a história de um amor frustrado que termina com o suicídio do protagonista. Dizem que o livro teria levado a uma onda de suicídios na Europa naquela época, conhecida como Efeito Werther. Havia o medo que a simples leitura do livro levaria os jovens a se matar. Tal efeito nunca foi cientificamente comprovado e as análises estatísticas nunca evidenciaram aumento real do suicídio na época. Talvez por isso exista o medo de falar sobre o assunto. Expor na mídia quebra um tabu, conscientiza as pessoas da realidade e nos faz refletir sobre a necessidade da prevenção do suicídio. Abordar de forma realista e não romântica é melhor ainda.
Por fim não podemos dizer que uma obra do Goethe não tenha contribuído para a reflexão da sociedade na época e até hoje. O Efeito Werther é um mito, e na vida real, após a desilusão amorosa, Goethe chorou, viveu um tempo de luto, superou e escreveu o livro dando vida ao Werther. Livro que o alçou à fama na Europa.

Importante lembrar que dispomos de um telefone nacional que oferece ajuda àqueles que precisam. Para prevenção do suicídio podemos divulgar este número. 188. Atende pessoas que estão pensando em dar um fim a tudo, orienta e encontra ajuda necessária.

Entrevista pela Revista Viva Saúde 

Por Dr. Fábio Marcondes Pacheco